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se eu tivesse que fazer meu trabalho em 1987

a trend dos anos 80 mostrou, sem querer, a coisa mais óbvia do mundo: como era fazer o trabalho de hoje num mundo de um aparelho por tarefa.

a trend dos anos 80 tomou conta e eu, como bom seguidor de multidão com atraso, entrei. a brincadeira é: como você seria em 1987.

só que eu não fiz a versão cabelo grande. eu fiz a versão trabalho.

a pergunta que eu fiz pra mim

como seria tentar fazer o que eu faço hoje numa época em que cada tarefa exigia um aparelho diferente e uma quantidade ofensiva de papel?

a resposta me deu uma preguiça histórica.

  • escrever: máquina de escrever. errar uma frase = rasgar a folha
  • editar foto: laboratório, ou mandar pra quem tinha
  • publicar: gráfica, jornal, panfleto. ou depender de alguém muito bem posicionado
  • arquivar: pasta física. "buscar" = revirar gaveta
  • mandar pro cliente: correio. três dias pra um arquivo chegar

e as reuniões. as reuniões em 1987 exigiam que todas as pessoas estivessem fisicamente no mesmo lugar. se a pessoa não pudesse, a reunião não acontecia — tinha que ser adiada pra quando pudesse. imagina isso: um problema real fazendo fila por logística.

o que a brincadeira revelou sem querer

a trend era sobre cabelo e vinil. mas o que ela mostra, quando você olha de perto, é que quase todo o trabalho "de conteúdo" sempre foi execução logística. transporte, espera, repetição, retrabalho.

a parte que sobrou pra hoje — pensar, ter opinião, decidir o que vale ser dito — é a única parte que nunca teve substituto. em 1987 também era assim: quem tinha ideia mandava fazer; quem tinha só habilidade operava a máquina.

só que em 1987, a habilidade operacional era raríssima. hoje é commodity. e é por isso que tanta gente com excelente execução está apavorada: a execução parou de ser o diferencial — virou o mínimo.

o trabalho nunca foi a ferramenta

essa é a frase que fica. eu escrevo com ia, edito com ia, publico num site que eu mesmo reconstruí. mas se você me tirar tudo isso e me der 1987 inteiro — máquina de escrever, correio, laboratório — eu ainda tenho o meu trabalho. ele ficaria mais lento. mas ia existir.

porque o trabalho nunca foi o software. é decidir o que dizer. e essa parte, por mais que a trend tente brincar, é insubstituível: cabelo dos anos 80 dá pra gerar em dez segundos. ponto de vista, não.

fecho

a trend foi gostosa. todo mundo com o filtro ligado, bigode, fita cassete. eu ri, participei, e recomendo.

mas por baixo da piada ficou um lembrete que eu não pedi: eu dependo de dez aparelhos pra fazer o que faria com um caderno e uma ideia boa. é conveniência, não é identidade.

se a ia entrar em greve amanhã, quem tu seria sem ela? é a única pergunta que a trend não responde — e a única que importa.

e se quiser ver o que eu faço com esse tal de trabalho moderno, o arquivo completo tá aqui — ou me segue lá, que a trend já passou mas a vida não.

perguntas frequentes

vale entrar em trend atrasado?

vale, se você leva um ângulo que não é só o filtro. a trend é o trem; o teu conteúdo é a mercadoria. trem que já passou ainda vai pra algum lugar — só espera menos gente na plataforma.

sem toda a tecnologia, o que sobra do trabalho de criador?

sobra o que sempre sobrou: repertório, opinião e a decisão do que vale ser dito. o resto é velocidade, e velocidade sempre foi comprável.